O geógrafo Franco Farinelli fala em reversibilidade do movimento para contrapor as viagens de Marco Polo e Colombo. O navegador genovês confiava nos mapas, tinha pressa, muitas ambições e compromissos com patrocinadores. Tinha agenda. O veneziano transformou-se no caminho, esqueceu o tempo. Por pouco não teria jamais voltado para casa.Tipos de viajantes e modos de viajar foi o tema de meu recém-concluído doutorado em Letras. A tese, intitulada Em trânsito - Um estudo sobre Narrativas de Viagem, está na íntegra em www.renatomodernell.
A reversibilidade do movimento evoca minha experiência pessoal. Aos 22 e aos 33 anos de idade resolvi viajar levando a vida em aberto. Vendi o pouco que tinha e saí do país sem passagem de volta nem previsão de retorno. Na primeira vez, por medida de economia, fui de navio. O Cabo San Roque, espanhol, de umas 15 mil toneladas, fora um barco glamoroso nos anos 60 mas já estava decadente naquele outono de 1976 em que fazia sua última travessia do Atlântico em linha regular de passageiros. O detalhe ornamentou minha aventura.
Nenhuma das demais viagens que fiz rivalizou, na essência, com aquelas sem passagem de volta. As outras tiveram a premissa do retorno como fator de perturbação, feito uma torneira gotejante. O ritual da volta para casa pode ser reconfortante, mas nunca vertiginoso e revelador quanto a consciência, ao partir, de talvez se estar vendo tudo à volta pela última vez. O gostinho do irreversível. Mesmo quando se retorna de uma viagem em aberto, sente-se o mundo habitual de modo diferente. Então não será uma volta, mas um salto para um patamar existencial situado uma oitava acima do momento da partida.
Entre Marco Polo e Colombo, cravo Marco Polo e empate. Dispenso a pressa e o estresse de Colombo. A liberdade possível, hoje, é viajar sem agenda, sem mapa, em um mundo que sacraliza a precisão do GPS.
Não pude repetir, aos 44 e aos 55, as viagens em aberto realizadas aos 22 e aos 33 anos. Quem sabe o farei aos 66 anos, se antes os anjos não vierem me levar para a Banda Larga. Essa viagem, sim, é irreversível. E de graça, penso eu.






